Viçosa do Ceará: História
Viçosa do Ceará foi o primeiro povoamento português na Serra da Ibiapaba, inicialmente habitada por indígenas Aconguaçús, que dominavam o extremo norte da serra, além da grande nação Tabajara, conhecidos como "Senhores da Serra". Além destes, ao longo da história houve migrações de povos de outras regiões como os Anacés, Areriús, Anapurus-Açus e Anapurus-Mirins.
O primeiro contato europeu na região, foram os franceses que estabeleceram a Feitoria da Ibiapaba, comercializando e trocando com os Tabajaras desde 1590. O maior aliado dos francos, era o cacique Irapuã (ou Mel Redondo), que possuia sua aldeia na região de Viçosa e Tianguá. Em 1603, o capitão português Pero Coelho de Souza liderou uma expedição na Ibiapaba para expulsar os franceses e conquistar os indígenas, realizando um massacre contra os Tabajaras e trazendo inúmeras doenças. Após isso, o governo português tenta fundar uma aldeia na serra, enviando dois jesuítas sob o padre Francisco Pinto, que se estabelece na aldeia de Juripariguaçu, um cacique Tabajara (atual Ibiapina). Mas, a tentativa de colonização falha após uma chacina que matou um padre e alguns Tabajaras, em um ataque dos indígenas Takarijús. Com o fim do domínio neerlandês no Nordeste, em 1654, grupos indígenas potiguara que haviam combatido ao lado da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais refugiaram-se na Serra da Ibiapaba. Liderados por Antônio Paraupaba, procuravam escapar das represálias portuguesas, preservar sua autonomia e manter elementos da religião reformada aprendida durante o período do chamado Brasil Holandês. O território ocupado por esses refugiados aparece nos documentos de Paraupaba com o nome de Cambressive.
A experiência, situada entre 1654 e 1660, passou a ser denominada por parte da historiografia como República de Cambressive. A expressão “república”, entretanto, é uma denominação historiográfica, pois o historiador Lodewijk Hulsman identifica “Cambressive” principalmente como uma referência à própria Serra da Ibiapaba, utilizada como território de refúgio por diferentes povos indígenas. Paraupaba apresentou requerimentos aos Estados Gerais dos Países Baixos, solicitando auxílio material e militar para proteger a comunidade, mas não conseguiu a intervenção neerlandesa pretendida.
Cambressive também apresentava influência do calvinismo difundido entre os indígenas durante o domínio neerlandês. No relato escrito pelo padre António Vieira em 1660, são mencionados indígenas alfabetizados, materiais de escrita e bíblias protestantes existentes na Ibiapaba. Escrevendo a partir de uma perspectiva católica e jesuítica, Vieira comparou a região a uma “Genebra do Brasil”, demonstrando a preocupação da Companhia de Jesus com a presença protestante na serra.
A presença dessa comunidade indígena vinculada à religião reformada contribuiu para a retomada das missões católicas na Ibiapaba em meados da década de 1650. Sem o apoio militar solicitado aos Países Baixos e diante do avanço das autoridades portuguesas e dos missionários, Cambressive perdeu progressivamente sua autonomia. Apesar disso, a experiência permaneceu como um episódio de resistência, articulação diplomática e busca de autonomia dos povos indígenas aliados aos neerlandeses. …