Vila Pavão: História
O vale do rio Cricaré (também chamado de São Mateus), assim como a maior parte do norte e noroeste do Espírito Santo, foi habitado por grupos indígenas que ficaram conhecidos historicamente como Botocudos e Maxacali. Falantes de idiomas da família Macro-Jê, os Botocudos eram conhecidos pelo uso de botoques nos lábios inferiores, o que chamava atenção dos não-indígenas, que relatavam essa peça como um "pedaço de tábua" nas bocas. Também genericamente conhecidos como Botocudos pelos colonizadores portugueses, há relatos de que os Aimorés também teriam ocupado o norte capixaba. Vistos como grupos indígenas caçadores-coletores hostis aos portugueses até fins do século XIX, também praticavam a horticultura e a agricultura de forma incipiente. Os confrontos seguidos com colonizadores vindos de Portugal e posteriormente contra brasileiros e imigrantes recém-chegados da Europa teriam causado a expulsão e diminuição demográfica drástica desses povos expulsos por colonizadores. Da segunta metade do século XIX também data menções a grupos Botocudos conhecidos como Nacnenuc, Gueren e Poychá, habitantes do entorno do vale do rio Cricaré.
Por outro lado, apesar de documentações coloniais do período entre os séculos XVI e XVIII indicarem que Tupinambás e Temiminós habitavam principalmente o litoral capixaba, há indícios de que esses e outros povos tupi-guaranis também ocuparam partes do interior. Uma dessas possíveis evidências é o sítio arqueológico Alto Pipinuque 1, localizado no sul do município de Vila Pavão, próximo às margens do rio Cricaré. Em 2022 foram identificados diversos fragmentos de cerâmica relacionadas à Tradição Tupiguarani - algumas ainda com vestígios de pinturas - e ferramentas feitas em quartzo leitoso. Outro fator que indicaria um caráter de permanência dessas populações na região seria a área onde foram encontradas peças: um terraço fluvial, ideal para o cultivo de alimentos e com abundância de argila e rochas para produção de vasilhas e instrumentos líticos. Não há informações sobre datações obtidas nesse sítio, nem exatamente qual grupo habitou esse local, porém há indícios de que povos falantes de idiomas tupi-guarani possam ter habitado a região desde pelo menos o ano 200 da Era Comum.
O processo de colonização europeia da região norte e noroeste do estado do Espírito Santo teve o rio São Mateus como um de seus principais pontos de partida e, também, como rota de entrada para as áreas interiores do estado. Contudo, a partir do momento da descoberta das minas de ouro da região do atual estado de Minas Gerais, a Coroa Portuguesa proibiu o acesso à retaguarda da capitania do Espírito Santo como uma medida de "proteção" para as Minas Gerais. Em 1773, a circulação pelo Rio Doce, a principal rota na região para acessar as áreas de mineração, foi proibida, e fortificações costeiras foram estabelecidas, criando assim uma "barreira protetora". Essa designação de uma "área proibida" no Espírito Santo proporcionou um refúgio seguro para as tribos indígenas vistas como hostis, especialmente os já citados Botocudos, tornando a colonização da região uma empreitada desafiadora.
A construção da ponte sobre o Rio Doce, em Colatina, e a abertura da estrada que liga Nova Venécia a Vila Pavão, em 1940, foram as obras que desencadearam o povoamento e a colonização do município. Os tropeiros e caminhoneiros faziam divulgação "das terras quentes" aos imigrantes pomeranos e italianos no Sul do estado e nas regiões de limite com Minas Gerais. …