Sem peixe nem tapioca: mudança na alimentação ameaça cultura e saúde de ribeirinhos da Amazônia
11 de janeiro de 2026
Comunidades ribeirinhas da Amazônia localizadas na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, estão trocando alimentos tradicionais por produtos industrializados, aumentando o risco de doenças graves e perda de qualidade de vida, como mostra um estudo realizado no Instituto de Biociências (IB) da USP. A pesquisa, que tem como autora a bioantropóloga Mariana Inglez, foi premiada na categoria Inclusão Social e Cultural e Redução das Desigualdades da 14ª edição do Prêmio Tese Destaque USP.
O estudo analisa esse fenômeno de transição nutricional como um processo de nutricídio, termo criado pelo médico Llaila O Afrika, em 1993, para descrever a perda nutricional caracterizada pela dificuldade ou total falta de acesso a uma alimentação saudável em populações à margem da sociedade, o que influencia a saúde e continuidade de culturas alimentares tradicionais.
Entre 2019 e 2023 a pesquisadora acompanhou de perto as comunidades. Os dados coletados por Mariana mostram que, em duas décadas, o consumo de alimentos industrializados cresceu de forma significativa. Na dieta, a participação de carboidratos provindos de alimentos comprados passou de 14% para 33%, a de proteínas de 13% para 33%, e a de gorduras de 21% para 71%. Esse avanço reflete uma substituição de dietas tradicionais por produtos industrializados ricos em energia e pobres em nutrientes.
“Quando falo nessa transição nutricional, estou falando da substituição de alimentos que fazem parte da identidade de um povo, que têm uma relação com o ambiente e uma relação com aspectos simbólicos, culturais e afetivos. Geralmente são alimentos muito mais saudáveis”, diz Mariana em entrevista ao Jornal da USP. O resultado encontrado durante a pesquisa etnográfica — abordagem que implica convívio e imersão na rotina das pessoas que colaboraram com o estudo — mostra que a dieta antes baseada em farinha, peixe e frutas locais tem sido substituída por produtos comprados, como arroz branco, açúcar, óleo vegetal, refrigerantes e macarrão instantâneo.
“Esse processo já era percebido pela população”, afirma Mara, habitante de uma das comunidades visitadas em Caxiuanã. A reportagem optou por não identificar o sobrenome da moradora e o nome da comunidade para preservar sua segurança e privacidade, em acordo com a escolha da pesquisadora. “Antes a gente consumia basicamente alimentos naturais, por exemplo, o peixe que a gente pescava, a caça, a farinha que produzimos aqui mesmo. …